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Cultura

“Guerra às drogas” é fonte de lucro, diz ex-policial americano

Depois de perder um amigo no combate ao narcotráfico, ele luta pela legalização

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Carreira policial

Neil Franklin serviu à divisão de combate ao narcotráfico por mais de 30 anos na polícia estadual de Maryland, EUA. Seu amigo Ed Toatley, que trabalhava como agente infiltrado do FBI para investigar traficantes de cocaína, foi morto no ano 2000. O rapaz levava milhares de dólares para comprar a droga e foi morto pelo próprio fornecedor – assim, o traficante pôde ficar com a cocaína e o dinheiro.

 

Revendo conceitos

O episódio fez com que Franklin se questionasse sobre a política de “guerra às drogas”. Ele ficou impressionado com a violência gerada pela proibição. “As drogas, quando são proibidas, tornam-se muito mais perigosas, inclusive para os próprios usuários, que não sabem o que estão usando”, argumenta o ex-policial. Após algumas pesquisas, ele conheceu o site da LEAP (Law Enforcement Action Partnership – Parceria de Agentes da Lei para a Ação) e se tornou diretor executivo da organização, que luta pelo fim da proibição e reúne promotores, juízes, agentes prisionais e outros agentes da lei.

 

Causas e objetivos da “Guerra às drogas”

“Não escolhemos combater determinadas drogas por um problema de saúde pública. Fizemos isso porque queríamos controlar grupos de pessoas das quais não gostávamos. Queríamos controlar os negros, queríamos controlar os mexicanos”. Ele também relacionou o racismo policial com o histórico de escravidão, algo que não acabou “milhares de anos atrás, mas sim no final do século XIX, na época dos meus avós”.

 

Consequências na América Latina

Franklin entende que os EUA influenciam o mundo todo, em especial a América Latina, com sua política em relação ao tráfico. Apesar de pessoas de todos os estratos sociais consumirem e venderem drogas, os mais pobres são as principais vítimas da violência. “Em toda a América Latina a guerra às drogas faz vítimas. Do México a Honduras e mesmo no Brasil, é nas comunidades pobres que acontece a maior parte do sofrimento.”

 

“Grande fonte de lucro”

Segundo ele, a proibição do uso e venda de drogas acontece porque é bastante lucrativa a poderosos setores da sociedade, como a indústria farmacêutica. “Continuamos a manter essa guerra ineficaz porque a proibição é uma grande fonte de lucro hoje. Das prisões privadas aos lucros da venda de bens fabricados por presos, uma mão de obra muito barata. Depois, a indústria farmacêutica. Estamos falando do uso da cannabis medicinal para inúmeras patologias, inclusive dores generalizadas. Os opiáceos, usados para combater dores agudas, são grande fonte de lucro para a indústria farmacêutica. Perder 10% que seja desse mercado para a cannabis significaria algo devastador para essas empresas.”

 

Inimigo dos policiais?

Neil conta que costuma ser questionado por antigos colegas, que o acusam de ter se tornado “antipolícia”. Ele acredita, no entanto, ser o maior defensor de seus amigos. “Ser policial é ser guardião de quem não pode proteger a si mesmo. Especialmente os que são vítimas de crimes, estupros, assassinatos, roubos, furtos. A guerra às drogas não tem nada a ver com isso.”

Fonte: O Globo.