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Cultura

Líder da Igreja da Cannabis é solto, mas ainda luta pela liberdade de culto

“É duro manter a sanidade”, afirmou sobre os quase sete anos de prisão

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Condenado a 22 anos de prisão, Ras Geraldinho ganhou liberdade em meados de maio deste ano. Em 2006, ele fundou a “Primeira Igreja Niubingui Etíope Coptic de Sião”, conhecida como a primeira Igreja da Cannabis do Brasil, mas foi preso em 2012 pela Guarda Municipal da cidade de Americana (SP) devido aos 37 pés de Cannabis encontrados em seu sítio. Agora, ele cumpre o restante da pena em regime aberto e falou sobre as obrigações que ainda têm perante a lei, questionando também os motivos de sua reclusão.

“Tenho 3 anos e meio ainda em regime aberto, não podendo sair de Americana e tendo que estar em casa às 22h”, explica o rastafári, que acredita estar sendo injustiçado, na medida em que o Conselho Nacional de Política sobre Drogas (Conad) protocolou em 2004 o direito de culto do Santo Daime, que também utiliza substâncias psicoativas em seus rituais religiosos. “Nossa defesa se embasa na jurisprudência do Santo Daime, que usa o chá de ayahuasca”, contou Geraldinho.

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Engana-se quem pensa que Geraldo Antônio Baptista – nome de registro de Ras Geraldinho – é um “louco” que apenas plantou pés de Cannabis e reuniu pessoas para “curtir” sob a camuflagem de religião. Os encontros da Igreja sempre foram registrados na administração pública de Americana, mas o juiz responsável pelo caso alega a falsidade dos documentos. “Isso é o que o juiz acha, a compreensão é dele. Como pode a ata ser apócrifa (falsa) se ela foi registrada no cartório de Americana e aceita, com endereço, CNPJ e alvará da prefeitura?”, indaga o líder religioso.

“Se ele (Ras Geraldinho) quisesse seguir a religião, deveria ir morar na Jamaica”, escreveu o juiz Eugênio Augusto Clementi Júnior na sentença que o condenou por tráfico de drogas a mais de 14 anos de prisão, multa de R$ 51,1 mil e o repasse de seu imóvel à União.

Em entrevista dentro do templo, ele explicou a origem de alguns símbolos, como o preto velho fumando cachimbo, uma representação do espírito africano. Também existe um Buda (o espírito oriental); o Ganesha (hinduísmo); a Bíblia (cristianismo); pirâmides (antiga religião egípcia) e outros elementos que remetem à natureza.

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Ras Geraldinho é jornalista autodidata e já trabalhou como editor de imagem na Rede Globo entre 1985 e 1991, em Washington (EUA). Ele também realizou campanhas eleitorais por PT e PSDB, tendo se filiado ao primeiro e tentado se candidatar a deputado, porém, sem sucesso na efetivação da candidatura.

“O motivo da minha prisão foi uma perseguição política, sou um preso ideológico”, afirmou. Enquanto não obtém o direito de culto de sua religião, no entanto, ele luta pelo continuidade de sua fé e de seu próprio bem-estar. “Depois de passar quase sete anos trancado numa caixa de concreto, é duro manter a sanidade”, lamenta Geraldinho.