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Cultura

Por que a Cannabis começou a ser proibida?

Planta sempre foi utilizada, mas questões políticas e econômicas mudaram o panorama

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Um dos argumentos utilizados em defesa da legalização da Cannabis é o fato de que ela é utilizada há milhares de anos. Seu potencial de cura e de produção de tecidos e materiais através do cânhamo são evidências da melhora da qualidade de vida do ser humano que a planta proporciona. Em cada local do mundo, existiram questões específicas que ocasionaram a proibição de seu uso, mas no caso do Brasil, que passou a sofrer influência direta dos EUA a partir do século XIX, compreender as origens da proibição na “terra do tio Sam” ajuda a conhecer nossa própria trajetória proibicionista.

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Entre as décadas de 1910 e 1920, as autoridades políticas e religiosas dos Estados Unidos passaram a combater o uso de álcool: foi a chamada Lei Seca, que proibia a produção e comercialização de bebidas alcoólicas. Por um lado, o argumento era moral, na medida em que consumir bebida alcoólica seria um ato “intoxicante”. Por outro, com a entrada do país na Primeira Guerra Mundial, era necessário economizar na produção de alimentos como o trigo e outros cereais utilizados na fabricação de cervejas e bebidas alcoólicas em geral – não consumir cerveja, produto típico da Alemanha, era também um ato “patriótico” contra o inimigo de guerra.

Nesse contexto, a população passou a se interessar mais pela Cannabis, que até então estava mais associada aos habitantes latino-americanos, como forma de recreação. Foi aí que Henry Aslinger entrou em cena: chefe da Divisão de Controle Estrangeiro do Comitê de Proibição, ele passou a combater com veemência o consumo da planta, relacionando-a à promiscuidade e ao crime. Paralelamente, acredita-se que Aslinger tinha o interesse de fortalecer indústrias concorrentes da Cannabis – como ficariam os produtores de algodão, por exemplo, ao enfrentarem no mercado a eficiente fibra de cânhamo?

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A partir de 1930, o álcool volta a ser permitido e inicia-se uma perseguição aos consumidores de cocaína e ópio, além da Cannabis, o mais novo item da lista de substâncias proibidas do recém criado Federal Bureau of Narcóticos (Departamento Federal de Narcóticos).

Apesar da influência estadunidense, o Brasil também teve suas particularidades. Durante o período escravocrata, a planta era comumente consumida pelos negros, algo que gerava insatisfação dos “senhores”, que entendiam haver uma redução do desempenho dos escravos nas lavouras. Somando essa situação ao contexto mundial de proibicionismo – especialmente com a influência dos EUA – a Cannabis passou a ser combatida também por aqui.

Entre os vários problemas do proibicionismo, tanto do álcool como o da Cannabis, está o surgimento do crime organizado financiado pelo tráfico. De uma hora para outra, a sociedade passa a depender do mercado paralelo para utilizar substâncias que sempre fizeram parte de suas vidas e culturas. O resultado dessa história todos já sabem: contrabandistas começaram a se armar para defender o patrimônio econômico dos traficantes contra os governos, gerando uma onda de violência no mundo todo. Assim se formaram os carteis de drogas, retratados atualmente em vários filmes e séries.

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Os países que ainda apostam no proibicionismo convivem diariamente com produtos recreativos sem controle de qualidade e violência urbana entre traficantes e policiais que diariamente afeta e acaba com a vida de civis, principalmente nas regiões periféricas. Será que proibir é, de fato, o melhor caminho?