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Cultura

Sabe por que as headshops podem vender seda e dichavador?

Entrevistado pelo CBDB, dono de headshop defende legalização da Cannabis

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Emiliano Pedro é um dos sócios da Inca Headhsop, uma tabacaria localizada no tradicional bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Em entrevista à equipe do Cannabidiol Brasil, ele explicou como funciona a legislação brasileira a respeito do seu negócio.

“A gente está sob o guarda-chuva legal das tabacarias. A maioria dos produtos são feitos para o uso de tabaco, mas a finalidade que o cliente vai dar não é nossa responsabilidade”, diz Emiliano.

O empresário também discorreu sobre a legalização da Cannabis, cuja utilização está muito além do uso recreativo, “que é o que a maior parte das pessoas está acostumada a criticar. Muitas famílias dependem de CBD para cuidar de pacientes dentro da própria família, seja pai, mãe ou filho”.

Futuras oportunidades de negócios, especialmente na área de cosméticos, foram outro tema abordado. “Uma série de coisas que vão entrar no mercado e que aqui na loja já têm uma procura. Quando a lei for avançada, vai permitir que esses produtos sejam comercializados”, afirmou.

Veja a entrevista na íntegra:

 

Cannabidiol BrasilComo surgiu a Inca Headshop?

Emiliano – Surgiu há três anos. A gente estava conversando bastante sobre abrir uma headshop, a ideia veio do Zé Gabriel, meu sócio. Inicialmente, eu ia entrar como investidor, mas eu gostei tanto do formato do negócio e da proposta que acabei entrando de sócio. A gente fez uma grande pesquisa de mercado, mapeamos as headshops que já existiam, que já estavam atuando há vários anos. Fizemos uma pesquisa local também aqui do bairro da Vila Madalena, onde acabamos escolhendo para abrir nosso negócio. E depois de 6 meses, que completamos o plano de negócios e finalizamos a pesquisa, conseguimos locar esse imóvel e abrimos a loja.

CBDBTeve alguma burocracia, alguma questão legal a ser resolvida?

E – Primeiro, nos informamos a respeito da questão legal da venda dos produtos. A gente está sob o guarda-chuva legal das tabacarias. A maioria dos produtos são feitos para o uso de tabaco, mas a finalidade que o cliente vai dar não é nossa responsabilidade. Temos muitos trituradores de fumo, papel para enrolar, filtro, piteira, que na própria publicidade desses produtos está escrito que são destinados para tabaco. Muitos deles são usados para consumo de Cannabis, mas estão sob o guarda-chuva legal do tabaco. Dichavador, bong, pipe, todos os produtos. Porque, no país, o consumo da Cannabis não é legalizado e descriminalizado, então as empresas que produzem, importam ou distribuem esses produtos utilizam a finalidade do tabaco. E isso faz sentido também porque muitos desses produtos são usados para tabaco. Muitos clientes usam vaporizadores com tabaco, não usam Cannabis. Todos os papéis, cachimbos e até o bong podem ser usados para tabaco. Existe uma coerência nesse discurso. Em termos legais, não foi diferente de abrir uma tabacaria e um café, que é o nosso caso. Tivemos que fazer um registro da empresa, contratar um contador, ir na Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), registrar nossa empresa, abrir um CNPJ, ver os itens dentro do objeto social que a gente gostaria de trabalhar. Um processo normal, como qualquer empresa, dentro do ramo do varejo.

CBDB Você teve alguma dificuldade em apostar nesse negócio? Preconceito de família ou amigos?

E A Cannabis no Brasil sofre muito preconceito mesmo, principalmente por uma falta de conhecimento. Do meu lado, dentro da minha família, não tive qualquer tipo de preconceito, acho que todas as pessoas têm acesso a esse conhecimento e inclusive apoiaram a abertura do negócio. Tem o desafio do dia a dia, de qualquer negócio, que é você fazer a sua empresa prosperar, ser bem administrada, atingir o público alvo desejado, cumprir a missão da sua empresa. Acho que o negócio de produtos relacionados ao consumo de Cannabis, no Brasil, sempre vai ser desafiador enquanto a lei não for avançada. Mas a gente tem uma coerência muito legal dentro do nosso discurso. A gente apoia a legalização da Cannabis no Brasil e respeitamos a atual lei. Não temos interesse em comercializar maconha. Quando for regulamentado, aí sim a gente pode pensar em estimular o cultivo para a pessoa ter uma relação melhor com a Cannabis, seja para fins terapêuticos, medicinais ou recreativos. Nosso desafio é justamente passar esse conhecimento para o público, dividir isso de uma forma aberta e transparente, colocar qual é a realidade sem nenhum tipo de julgamento de valor, nenhum tipo de filtro. Porque a realidade é que muita gente consome Cannabis no Brasil. E não só para o recreativo – que é o que a maior parte das pessoas está acostumada a criticar. Muitas famílias dependem de CBD para cuidar de pacientes dentro da própria família, seja pai, mãe ou filho… várias condições médicas são tratadas com Cannabis.

CBDB Como está o mercado no Brasil?

E – Acho que o mercado está formado, já há alguns anos, e crescendo. Acho que de uns três anos para cá teve um crescimento significativo na quantidade de tabacarias e headshops, não só em SP e interior, como em cidades do país inteiro. O fato de movimentos ativistas, como a Marcha da Maconha, ou associações como a CUCA, ou algumas associações com autorização da Justiça para cultivar Cannabis para fins medicinais, fez com que as pessoas perdessem um pouco o medo de falar abertamente sobre o assunto. Muita gente está somando nisso – a última Marcha da Maconha teve estimadas 100 mil pessoas na Paulista, foi a maior de todos os tempos. Ela já existe há 10 anos e, se não me engano, desde 2008 para cá ela é autorizada pelo STF, então isso ajudou muito na aceitação do tema. Por mais que a pessoa seja contra, ela vai ter que aprender a conviver com isso porque faz parte da realidade, não só do Brasil, mas do mundo inteiro… São Paulo, como é de se esperar, é o mercado mais aquecido do Brasil – aqui tem a maior quantidade de headshops do Brasil… Rio de Janeiro também tem uma cultura canábica bem tradicional… vejo que as coisas estão melhorando, o movimento ativista está crescendo e sendo mais aceito. Estamos conseguindo entrar em discussão direta com o STF, Câmara de vereadores, deputados, Parlamento… Isso tudo está acontecendo através de movimentos sociais e também de poucos políticos que abordam o assunto de maneira aberta. Claro que ainda é um tabu muito grande, de maneira geral o país é conservador, o Congresso é extremamente conservador. Acho que a classe política não está evoluindo tão rápido quanto a sociedade dentro desse tema. Existem vários movimentos sociais que vão fazer com que esse movimento de descriminalização venha da população e dos movimentos que estão se formando para isso, seja de famílias que precisam produzir CBD para uso medicinal, seja de pessoas que usam a maconha para fins terapêuticos ou recreativos.

CBDB A Anvisa caminha para regulamentar o plantio para pesquisa no Brasil. Você acha que isso pode impactar no seu negócio e no tabu que existe, elevando a discussão a outro patamar?

E – Acho que sim. Acho que a Anvisa vem dando vários sinais recentemente, esse é mais um deles. Recentemente, dois anos atrás, ela autorizou a importação de um remédio à base de Cannabis, depois acho que entraram mais três medicamentos nessa lista. A planta já foi classificada como medicinal. Agora, essa questão de regulamentar o cultivo para pesquisa vai formalizar uma realidade já existente, não só dentro da sociedade civil. Vários laboratórios já fazem pesquisa. Acho que isso vai impactar completamente o meu negócio porque existem vários produtos relacionados que não têm fins terapêuticos, medicinais ou recreativos, que é o de cosméticos. Existem vários hidratantes, óleo de massagem, hidratante labial… Uma série de coisinhas de uso tópico que são feitas de Cannabis, através de vários tipos de extrações diferentes. É um mercado muito grande. Acho que a tendência, no Brasil, é acontecer como em outros países: primeiro se diferencia os componentes da Cannabis que não possuem princípio psicoativo e que têm benefício para a saúde cientificamente comprovado e disso vai existir uma série de produtos, que vão passar por outro tipo de lei – a pessoa não vai usar isso para fumar ou comer, vai usar como um “creminho” feito de Cannabis. Isso é um exemplo, mas várias outras coisas podem existir, como roupas feitas de cânhamo. Uma série de coisas que vão entrar no mercado e que aqui na loja já têm uma procura. Quando a lei for avançada, vai permitir que esses produtos sejam comercializados.

CBDB Vocês estão se preparando para isso? Pretendem trazer lançamentos para seu portfólio?

E Primeiro a gente vai ter que entender qual é a lei. Porque, provavelmente, a produção disso no país vai ser um pouco mais complicada e lenta. Acho que a importação vai ser um pouco mais rápida porque, em outros países, esses produtos já existem. Temos vontade de comercializar cosméticos, por exemplo, mas como a coisa ainda está muito no princípio da discussão, tem duas formas de fazermos isso: uma é esperarmos a coisa acontecer e, quando acontecer, irmos atrás; a outra é, a partir de agora, independentemente de qualquer posição oficial da Anvisa, a gente provocar uma reação da Anvisa. Como empreendedores e conhecedores do tema, explicar que esses produtos não têm princípios psicoativos (no caso dos cosméticos) comprovadamente bons para a saúde e que são feitos de Cannabis. Como a Anvisa vai reagir? Isso pode gerar um estudo até – por que estamos indo só pelo caminho medicinal ou terapêutico? E outras coisas relacionadas? A maconha tem uma gama gigantesca de produtos industrializados que são usados há muitos anos, como fibras, tecidos, até para alimentação – o óleo de semente da maconha, por exemplo, é o que mais tem proteínas no reino vegetal. O lado recreativo é só uma parcela muito pequena do tanto que essa planta pode trazer.

CBDB Pra quem quer entrar nos negócios canábicos, mas tem algum tipo de receio, qual é a sua dica?

E Acho que esse mercado tem seus desafios por se tratar de um tema polêmico, de um tabu, de um tipo de relação da sociedade com a erva que, tradicionalmente, é proibicionista – apesar de, em termos históricos, esse proibicionismo da Cannabis ser algo recente. Acho que a melhor forma é assumir a posição sem medo. Claro que, se a pessoa estiver trabalhando só com produtos legalizados, respeitando as leis vigentes do país para o comércio do varejo, sem trabalhar com nada ilegal, não tem o que temer. É só seguir em frente, é um mercado muito bom, crescente, promissor, que tem muita demanda reprimida. Tem espaço pra todo mundo, então quanto mais gente vier para esse mercado, melhor.