conecte-se conosco

Mais

Feliz 4:20 debate trabalho, saúde e legislação canábica

Palestrantes apresentaram o atual estágio e projetaram o potencial do mercado nacional para a cannabis, em festival realizado em São Paulo

Published

on

Por Salvador Strano

Vinte de abril é sempre uma ocasião comemorativa para a comunidade canábica: pelo formato que os norte-americanos usam para registrar datas (indicando sempre o mês à frente), o dia é representado pelos números 4/20.  O calendário de 2019 brindou a todos com a celebração em meio ao feriado prolongado de Páscoa. O Festival Feliz 4:20 aproveitou a feliz confluência para realizar uma confraternização no sábado, na zona oeste de São Paulo, e discutir o potencial do mercado de cannabis brasileiro, a situação medicinal da erva e a legislação que trata do tema.

Mercado de trabalho

Entre os reflexos práticos de uma possível legalização da Cannabis medicinal e recreativa no Brasil está a criação imediata de novos empregos. Na estimativa de Ricardo Tolomelli, cultivador do Growknow.How, o agronegócio de grandes proporções seria responsável pela criação de 2 a 4 mil postos de trabalho relacionados ao cultivo massivo da planta. Já no ambiente para empresas menores, com estrutura familiar, o cenário é ainda mais promissor: seriam de 10 a 20 mil vagas.

O executivo acredita que o mercado canábico deve crescer com a legalização, mas não que o número de pessoas que consomem recreacionalmente aumente. Para Ricardo, o crescimento da demanda virá a partir da disseminação do uso medicinal. Atualmente, o Brasil possui cerca de 1,8 milhão de pessoas que consomem cannabis recreacionalmente por dia. A expectativa é que com a legalização, um número similar de pessoas se tornem pacientes com uso continuo do medicamento, totalizando 3,6 milhões de consumidores.

Entretanto, Ricardo traça uma linha entre o trabalho rural mal pago, e que resulta num produto commodity, e a agricultura familiar, que pode render cifras maiores aos trabalhadores – modelo similar aos clubes de compra uruguaios, país onde o Ricardo está radicado. “O cultivo de forma familiar e legalizada é o que vai lutar contra o agronegócio. Neste momento, já temos a possibilidade de, inclusive, começar um negócio de forma legalizada e resistir”, afirma.

Segundo a estimativa realizada por Ricardo, uma família que produza até cem quilos pode gerar um faturamento anual entre US$50 mil e US$ 200 mil.

Legislação

É no potencial de crescimento do mercado medicinal, apontado por Ricardo, que a legalização encontra um caminho mais promissor no Brasil. O Estado já distribuiu 35 habeas corpus para a plantação da erva, com o objetivo de tratar epilepsia ou outras doenças neurodegenerativas.

Segundo Cecília Galício, advogada da Accura e partner do escritório Schmidt Sociedade de Advogados, a não regulamentação do cultivo medicinal é inconstitucional, uma vez que a autolesão não é passível de punição pelo Estado. Além disso, “a Lei de Drogas, de agosto de 2006, prevê que o poder executivo federal regulamente a prática do cultivo medicinal”, afirma.

Entre os diversos problemas causados pela proibição, aponta Cecília, um dos principais é o dano à saúde pública – exatamente o argumento usado para coibir o uso. “A não regulamentação gera um saldo de violência gigantesco. Além da guerra às drogas não funcionar, a gente (como Estado) gasta muito para coibir”, opina.

Saúde

Entretanto, a discussão científica sobre a efetividade da cannabis no tratamento de mazelas ainda é marcada por paixões, sejam elas favoráveis ou contrárias ao medicamento. Essa é a visão de Marcelo Bausells, médico que prescreve remédios canábicos, e também paciente no tratamento de dores crônicas.

Entre 1874 e 1942, a maconha foi o medicamento mais prescrito para o tratamento de enxaquecas, recorda Marcelo. “A ação sinérgica entre os ativos da cannabis é a melhor forma de uso. Isso porque eles atuam de forma potencializada, o que faz com que seja, também, economicamente mais viável”, afirma.

Entre as doenças para as quais Marcelo recomenda o tratamento com cannabis estão: epilepsia, Parkinson, câncer, dor crônica, autismo, fibromialgia, ELA e esclerose múltipla. Além dessas, onde já há certa literatura médica que comprova ou indique melhora real nos pacientes, há também o uso medicinal “off label”, que leva em conta os efeitos colaterais.

Entre as doenças que podem ser tratadas dentro dessa categoria estão depressão, dependência química, diabetes e síndromes metabólicas.

Mas é preciso cuidado: por enquanto não há estudo sobre a interação direta da cannabis com outros medicamentos, mas há a potencialização dos efeitos. “Um dos exemplos onde isso pode acontecer é com o uso de Rivotril, onde a cannabis aumenta a sonolência. Outro é o uso de anti-hipertensivos. Nesse caso, a maconha, na forma de óleo, pode diminuir ainda mais a pressão sanguínea”, afirma.