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O que os oitenta tiros têm a ver com a “guerra às drogas”?

Preconceito causa mortes e impede o alívio da dor de muitos pacientes

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Nos últimos dias, o episódio do pai de família assassinado pelo Exército Brasileiro chocou o país. No bairro de Guadalupe, zona oeste do Rio de Janeiro, o músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, levava sua esposa, o filho de sete anos de idade e  afilhada de 13 para um chá de bebê, até que seu carro foi atingido por 80 tiros, alguns dos quais atingiram Evaldo e o levaram à morte. De acordo com as investigações, os militares teriam atirado porque “confundiram” 0 motorista com um assaltante. E é justamente essa “confusão” que remete à política de “guerra às drogas”.

Desde os inflamados discursos de Nixon, o proibicionismo ganhou força e legitimidade entre a maior parcela da população mundial. Combater o comércio ilegal “se confundiu” – ou “se fundiu” – com o combate aos consumidores de drogas. A falta de informação é substrato do preconceito, que agora esbarra numa infinidade de evidências científicas sobre os benefícios medicinais da Cannabis – a mais popular das substâncias proibidas. Disseram que “matava”, mas nem mesmo é possível sofrer uma overdose com o uso da planta. Muita confusão.

As favelas com tradição de venda de drogas são pensadas como o antro da “farra” dos traficantes. Mas será que os donos de um milionário negócio estão vivendo sob as precárias instalações das comunidades? Um tanto contraditório. Ternos, gravatas, helicópteros e mansões seriam mais apropriados para usufruir de todo o montante gerado pelo comércio ilegal. Dinheiro livre de impostos, os quais, se arrecadados, poderiam ajudar a melhorar a saúde e a educação, por exemplo.

Em meio a tanta desinformação, pode-se compreender a “confusão” que levou à morte de Evaldo. Sentimo-nos saciados de saber, mas famintos pela punição de bandidos que não sabemos, ao certo, quem são. Os militares que mataram o músico poderiam ter se dado ao benefício da dúvida. Abordar, averiguar, agir. Antes disso, no entanto, oitenta disparos foram efetuados contra um carro com uma família dentro.

Quantas vidas ainda serão levadas pelo preconceito? Sem acesso aos remédios que necessitam, pacientes estão sofrendo e morrendo devido à “confusão” da “guerra às drogas”, a mesma que legitima o uso desnecessário da força e assassina de todos os lados – bandidos, policiais, civis, inocentes.

Munidos de certezas infundadas, escolhemos uma cor para defender e outra para combater. Como num jogo de futebol, definimos um lado e nos recusamos a enxergar as coisas como elas são – na dúvida, a “falta foi para o meu time”.

Buscar o conhecimento e o diálogo é a única forma de não ficarmos presos sob a lente de contato dos nossos próprios interesses ou crenças. Enquanto não o fizermos, o fanatismo e o preconceito seguirão administrando a dor e o sofrimento daqueles que precisam de um remédio apropriado e dos que querem apenas viver e levar sua família a um chá de bebê.