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Saúde

Cresce o número de médicos que receitam Cannabis, mas demanda ainda é maior

Conselho Federal de Medicina pede “mais estudos” e é rebatido por especialistas

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Apesar dos crescentes esforços de famílias, médicos e ativistas, obter um remédio à base de Cannabis continua sendo um grande desafio no Brasil. De acordo com dados da Anvisa, os quais foram reunidos pela ABMedCan, o nº de prescritores desse tipo de medicamento subiu de 321 para 911 (183%) entre 2015 e 2018. No entanto, 4.236 pessoas conseguiram autorização para importar o medicamento, uma média de menos de cinco receitas por médico. E as consequências desse cenário são vivenciadas por quem mais precisa.

Esse é o caso de Mariele Martins, 33, que precisou passar por quatro médicos diferentes até encontrar um que receitasse o único remédio que melhorou o quadro da sua filha Laís, de apenas 1 ano de idade. A garota sofre de Síndrome de Aicardi, uma condição genética rara e congênita, a qual ocasiona frequentes convulsões.

Mariele saiu de Taubaté e percorreu 150 quilômetros até chegar a São Bernardo do Campo para conseguir a receita do medicamento. Laís sofria até 70 convulsões por dia, mas agora o número não passa de 3 crises diárias.

“O canabidiol não é milagre, mas devolveu a vida pra gente. Hoje, ela reconhece todas as pessoas da casa, assiste a desenhos, interage socialmente, brinca com o irmão”, reconhece a mãe.

O preço do tratamento sob importação é outro grande empecilho, podendo custar entre R$ 1 mil e R$ 7 mil mensais, a depender da dose indicada pelo médico. Regulamentar a produção nacional é a etapa que falta ser concluída para que o preço do medicamento seja reduzido.

 

Conselho Federal de Medicina dificulta o processo

O Conselho Federal de Medicina (CFM) tem posição conservadora diante da situação. A entidade defende que apenas neurologistas, neurocirurgiões e psiquiatras possam receitar remédios canábicos.

Salomão Rodrigues Filho, psiquiatra e conselheiro federal do CFM, argumenta sobre eventuais “riscos” do uso de medicamentos canábicos. “Já sabemos os efeitos terapêuticos, mas não conhecemos os riscos. Não sabemos o que vai acontecer com essa criança (submetida ao tratamento) quando estiver adulta”, afirmou.

Carolina Nocetti, cofundadora da ABMedCan, questionou a orientação do CFM. “Isso inibe a prescrição e a gente fica desprotegido”, disse a especialista.

Antônio Zuardi, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP Ribeirão), reforçou o fato de que já existem evidências científicas o suficiente sobre os efeitos medicinais da Cannabis.

“Os efeitos ansiolíticos e antipsicóticos do canabidiol foram observados pela primeira vez por um grupo de pesquisadores brasileiros, nas duas últimas décadas do século 20, e recentemente, confirmados por ensaios clínicos realizados por pesquisadores brasileiros, ingleses e alemães”, explicou Zuardi, cuja Faculdade deve abrir ainda este ano um Centro de Pesquisas em Canabinoides.