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Saúde

Médicos não passam informações sobre Cannabis, diz paciente

Sofrendo com convulsões, jovem utiliza vários medicamentos fortes

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Thiago de Castro Grillo, 24, mora na cidade de Itatiba, a cerca de 80 km da capital São Paulo. Desde 2010, ele sofre convulsões, as quais têm aumentado a frequência. Quatro médicos diferentes já receitaram vários remédios opióides, mas nenhum medicamento canábico – esse tema nunca sequer foi comentado pelos profissionais.

A equipe do Cannabidiol Brasil bateu um papo com Thiago, em busca de compreender uma realidade que pode ser semelhante à da maioria dos pacientes brasileiros que convivem com o problema. Poucos médicos recomendam remédios canábicos para o tratamento de convulsões e outras enfermidades, mesmo havendo muitas comprovações científicas e clínicas de sua eficácia.

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Outro entrave é a burocracia e o alto preço do tratamento alternativo, na medida em que a importação, única forma de acesso ainda permitida pela Anvisa, depende de autorização do órgão e de muito dinheiro – o tratamento pode custar até R$ 7 mil.

Leia a entrevista na íntegra.

Cannabidiol Brasil – Você tem um diagnóstico fechado sobre sua condição médica?

Thiago – Dizem que, pelo fato de eu ter uma deficiência congênita, e de um lado do cérebro ser maior que o outro, a chance de ocorrer uma falha de sinapse de neurônios aumenta.

CBDB – Isso é o que ocasiona as convulsões? Quantas você tem em média?

T – Exato. Começou em 2010. Até 2016, acontecia em um intervalo de dois anos. Em 2017, tive uma vez. E esse ano já foram três.

CBDB – Quando você buscou tratamento para as convulsões?

T – Não lembro exatamente. Acho que já foi na primeira [convulsão].

CBDB – Que remédios você começou a tomar?

T – Desde o começo não lembro [de todos]. Atualmente é o Neural, Depakote e Fenobarbital.

CBDB Muitas pesquisas estão sendo feitas sobre o uso da Cannabis e seus componentes, especialmente o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) no tratamento de doenças, como a epilepsia e convulsões decorrentes dela, Mal de Parkinson, esclerose múltipla, entre outras. Remédios com Cannabis têm substituído o uso de medicamentos fortes, como os opióides, que possuem severos efeitos colaterais. Seu médico já cogitou, alguma vez, o uso de remédios canábicos para o seu quadro clínico? Ao menos comentou sobre isso?

T – Não. Desde que comecei a tratar, já passei por quatro médicos diferentes. E nenhum falou nada.

CBDB – Qual sua avaliação sobre o tratamento que está fazendo agora? Acha que está sendo positivo? Gostaria de mudar algo?

T – É complicado, porque eu também tomo remédio para depressão. Estou tomando muito remédio. Estou até mudando de neurologista para rever meus medicamentos. Porque eu confio muito mais na minha psiquiatra do que nesses neurologistas com os quais eu estava me tratando. E ela pediu para eu ouvir uma outra opinião.

CBDB – Muitos pacientes, inclusive crianças, têm usado remédios com Cannabis para tratar convulsões. Você se sentiria à vontade para falar com seu novo médico sobre testar um medicamento desse tipo?

T – Acho que sim. Seria uma alternativa. O uso seria ainda só com autorização para a importação?

CBDB – Sim. De acordo com a legislação brasileira, é possível usar mediante autorização da Anvisa. Hoje em dia, o órgão só libera esse remédio por importações – a produção nacional ainda não está regulamentada. O custo mensal do tratamento, geralmente, é de no mínimo R$ 1 mil, podendo chegar a R$ 7 mil, dependendo da dose. Seria possível para você?

T – No momento, não teria como bancar este preço.

CBDB – O preço é uma barreira para a maioria das pessoas mesmo. Nesse sentido, muitas famílias têm buscado na Justiça brasileira o acesso ao remédio (existem diversos casos, algumas tentam o direito de importar sementes e cultivar a Cannabis em casa para fazer o remédio, outras pedem que o estado arque com o preço do remédio, etc). Como você acha que sua família reagiria se falasse em usar um remédio com Cannabis? Existe algum tabu sobre o assunto na sua casa?

T – Se eu explicasse e mostrasse como funciona, acredito que eles teriam mente aberta para assimilar isso. Mas, com certeza, vão querer ter a opinião de um médico também.

CBDB – Você acha que a Cannabis e seus benefícios têm sido mais discutidos no Brasil?

T – Eu não tenho conhecimento de muitas informações, mas acabei vendo os benefícios. Acredito que precisa ser muito mais discutido, pois os próprios médicos não passam essas informações para os pacientes.

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